“NO ATO DE FOTOGRAFAR ESTÃO OS LIVROS QUE LEMOS E OS FILMES QUE VIMOS"

A CARIOCA ANA CAROLINA FERNANDES COLOCA A VIDA EM SUAS IMAGENS
(Por Julio Caldeira)

 
Legenda: o salva-vidas André Deco, de 41 anos, foi fotografado com o telefone de Ana Carolina. A imagem eternizou a figura do rapaz, que este ano teve uma morte trágica um desentendimento com o vizinho

“Sempre fui apaixonada pelo mar. Mais do que pelas praias, o mar me fascina”. Esse é um dos sentimentos por trás do olhar (e das lentes) da fotógrafa carioca Ana Carolina Fernandes, que já passou pelo fotojornalismo (O Globo, Jornal do Brasil, Agência Estado e Folha de S.Paulo) e hoje segue entre convites para colaborações e projetos pessoais numa curva ascendente – a revista Time a citou em um artigo sobre os fotógrafos brasileiros do momento, daqueles que você tem que seguir no Instagram, (@culafernandes)

Entre seus registros – além da diversidade exuberante que toma sol nas praias do Rio de Janeiro –, há trabalhos com os travestis do bairro da Lapa (série Mem de Sá, 100) e quatro anos de cliques da Prainha (também no Rio), destino de surfistas, e que ela pretende transformar em livro via leis de incentivo. A seguir, leia trechos da conversa que a fotógrafa teve com a equipe aqui da Compota.

 

Praia do Leme

Você acha possível explicar o seu olhar?

Não conheço melhor maneira de explicar o olhar de cada um do que citando a célebre frase, de um dos meus fotógrafos preferidos desde a minha adolescência, quando comecei a fotografar, o Ansel Adams: “Não fazemos uma foto apenas com uma câmera. Ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos”. Enfim, acho que esse meu olhar foi sendo moldado com as minhas experiências de vida, crenças, buscas, verdades, ilusões, de que maneira eu quero dialogar com a magia da vida, que histórias quero contar através da luz, o que me inquieta o pensamento, a alma e o coração, e como quero transmitir essas minhas inquietantes buscas.

 
O Dois Irmãos visto da água

Parece que você tem um interesse especial pela Prainha, no Rio. Por que?

Sempre fui apaixonada pelo mar, Mais do que pelas praias, o mar me fascina. Meu mapa astral é quase todo feito de água e sou filha de Iemanjá. Amo praias desertas e silenciosas. Amo água limpa. A Prainha faz parte da minha busca espiritual. Em nenhum outro lugar do Rio (talvez no Jardim Botânico, mas aí é a energia da terra) me sinto tão profundamente conectada a energia espiritual do mundo. E se não bastasse tudo isso, a Prainha tem a mística da luta de Davi contra Golias. Toda aquela área viraria um grande condomínio imobiliário, com resorts e prédios enormes. Os surfistas souberam, se mobilizaram e impediram a construção. Em 1999 a praia foi tombada e criaram o Parque Nacional da Prainha.

 
Rapazes sob o sol do Rio

Acha que seria possível mostrar um cotidiano tão mágico – como você faz ao registrar a vida nas praias do Rio de Janeiro – caso você morasse numa cidade totalmente diferente, como São Paulo, por exemplo?

Realmente não sei dizer (risos). Eu já morei em SP. Amo a cidade. Gosto muito da beleza urbana de São Paulo. Tive uma casinha alugada em Camburi, no litoral norte, que também é um lugar mágico. Sinto saudades de lá. Mas acho que não importa onde eu morasse, acho que sim, eu registraria o cotidiano das praias do Rio, da mesma maneira. Acho que voltamos a tal da memória enraizada na alma. Tive desde sempre uma vida praiana, minha mãe adorava a praia. Meu pai e meu tio, Millôr Fernandes, tinham um "escritório" na praia. Acho que quando você se refere a "mágico", vem mesmo dessa memória. Tenho muitas críticas as praias do Rio. São (quase todas) poluídas, sujas, barulhentas e as vezes violentas...

 

Vendedor na Prainha, no Rio de Janeiro

Haverá algum lugar num futuro próximo onde pessoas possam conferir seu trabalho – além do próprio FotoRio? E é possível adiantar se você está envolvida com algum projeto. 

Estou, depois de quatro anos, colocando o projeto "Prainha" numa lei de incentivo, para fazer o livro. Vou publicar também, de forma independente, o meu trabalho com as travestis da Lapa, o Mem de Sá, 100 – é difícil conseguir incentivo para esse tipo de tema. Talvez com uma tiragem pequena, 100 exemplares, para vender também de forma independente. Pelo Facebook e Instagram... Aí, em setembro vou a Cuba, o Papa estará lá e eu acho que vai ser um momento especial do país. Vou por minha conta e fotografar para mim. Estou usando muito o Facebook como o meu jornal. Vou tentar fazer uma crônica visual diária. E claro, mergulhar nas águas azul turquesa do Caribe!

 

ANA CAROLINA FERNANDES 

Fotojornalista desde os 19 anos, quando entrou no jornal O Globo, ela já passou pelas redações do Jornal do Brasil, Agência Estado e Folha de S. Paulo. Na década de 90 se dedicou ao teatro e cinema, documentando festivais internacionais de teatro e  fazendo stils de filmes, curtas, documentário e vídeo clipes. Atualmente desenvolve ensaios pessoais e fotografa quase que diariamente as praias do Rio de Janeiro. É colaboradora de várias revistas e jornais, entre eles o The New York Times. A série “Mem de Sá, 100” foi finalista dos prêmios Conrado Wessel 2013 e Sony World Photography Awards 2014.

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